segunda-feira, 17 de março de 2014




Carta do Papa Francisco aos Brasileiros 
(por ocasião da Abertura da Campanha da Fraternidade 2014) 

Queridos brasileiros, 

Sempre lembrado do coração grande e da acolhida calorosa com que me estenderam os braços na 
visita de fins de julho passado, peço agora licença para ser companheiro em seu caminho quaresmal, que 
se inicia no dia 5 de março, falando-lhes da Campanha da Fraternidade que lhes recordo a vitória da 
Páscoa: <<É para a liberdade que Cristo nos libertou>> (Gal 5,1). 
Com a sua Paixão, Morte e Ressurreição, Jesus Cristo libertou a humanidade das amarras da morte 
e do pecado. 
Durante os próximos quarenta dias, procuraremos conscientizar-nos mais e mais da misericórdia 
infinita que Deus usou para conosco e logo nos pediu para fazê-la transbordar para os outros, sobretudo 
aqueles que mais sofrem: <<Estás livre! Vai e ajuda os teus irmãos a serem livres!>>. 
Neste sentido, visando mobilizar os cristãos e pessoas de boa vontade da sociedade brasileira para 
uma chaga social qual é o tráfico de seres humanos, os nossos irmãos bispos do Brasil lhes propõe este 
ano o tema “Fraternidade e Tráfico Humano”. 
Não é possível ficar impassível, sabendo que existem seres humanos tratados como mercadoria! 
Pense-se em adoções de criança para remoção de órgãos, em mulheres enganadas e obrigadas a 
prostituir-se, em trabalhadores explorados, sem direitos nem voz, etc. Isso é tráfico humano! <<A este nível, 
há necessidade de um profundo exame de consciência: de fato, quantas vezes toleramos que um ser 
humano seja considerado como um objeto, exposto para vender um produto ou para satisfazer desejos 
imorais? A pessoa humana não se deveria vender e comprar como uma mercadoria. Quem a usa e explora, 
mesmo indiretamente, torna-se cúmplice desta prepotência>> (Discurso aos novos Embaixadores, 
12/XII/2013). 
Se, depois, descemos ao nível familiar e entramos em casa, quantas vezes aí reina a prepotência! 
Pais que escravizam os filhos, filhos que escravizam os pais; esposos que, esquecidos de seu chamado 
para o dom, se exploram como se fossem um produto descartável, que se usa e se joga fora; idosos sem 
lugar, crianças e adolescentes sem voz. Quantos ataques aos valores basilares do tecido familiar e da 
própria convivência social! 
Sim, há necessidade de um profundo exame de consciência. Como se pode anunciar a alegria da 
Páscoa, sem se solidarizar com aqueles cuja liberdade aqui na terra é negada? 
Queridos brasileiros, tenhamos a certeza: Eu só ofendo a dignidade humana do outro, porque antes 
vendi a minha. A troco de quê? De poder, de fama, de bens materiais... E isso – pasmem! A troco da minha 
dignidade de filho e filha de Deus, resgatada a preço do sangue de Cristo na Cruz e garantida pelo Espírito 
Santo que clama dentro de nós:<< “Abbá, Pai!”>> (cf. Gal 4,6).A dignidade humana é igual em todo o ser 
humano: quando piso-a no outro, estou pisando a minha. 
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou! No ano passado, quando estive junto de vocês afirmei 
que o povo brasileiro dava uma grande lição de solidariedade; certo disso, faço votos de que os cristãos e 
as pessoas de boa vontade possam comprometer-se para que mais nenhum homem ou mulher, jovem ou 
criança, seja vítima do tráfico humano! E a base mais eficaz para restabelecer a dignidade humana é 
anunciar o Evangelho de Cristo nos campos e nas cidades, pois Jesus quer derramar por todo o lado vida 
em abundância (cf. Evangelii gaudium, 75). 
Com estes auspícios, invoco a proteção do Altíssimo sobre todos os brasileiros, para que a vida 
nova em Cristo lhes alcance, na mais perfeita liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8, 21), despertando em 
cada coração sentimentos de ternura e compaixão por seu irmão e irmã necessitados de liberdade, 
enquanto de bom grado lhes envio uma propiciadora Bênção Apostólica. 
Vaticano, 25 de fevereiro de 2014. 
Francisco, Papa

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